Andressa Anholete / Agência Senado | Official White House Photo by Daniel Torok | Ricardo Stuckert / PR.
O acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para ampliar o controle americano sobre reservas de petróleo da Venezuela pode ter reflexos na eleição presidencial brasileira. O movimento ocorre em meio à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre soberania nacional, relação com os Estados Unidos e posicionamento do Brasil diante de Washington.
Trump afirmou na sexta-feira (28) que os Estados Unidos terão controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo venezuelano. O volume representa cerca de 21% das reservas do país, que possui as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo.
O anúncio ocorre meses depois de uma operação militar americana que retirou Nicolás Maduro do poder. Desde então, o governo de Trump passou a ampliar sua influência sobre a Venezuela e busca garantir maior acesso ao petróleo produzido pelo país.
Tema já está na disputa brasileira
A atuação dos Estados Unidos na América Latina já entrou no discurso eleitoral brasileiro.
Lula tem usado o tema da soberania para defender maior autonomia do Brasil e dos países latino-americanos diante das grandes potências. Flávio Bolsonaro, por outro lado, mantém proximidade política com Trump e defende uma relação mais estreita entre Brasil e Estados Unidos.
Para o cientista político Elias Tavares, o acordo sobre o petróleo pode reforçar as diferentes narrativas adotadas pelas duas campanhas.
“Lula, por exemplo, tende a ter mais espaço para trabalhar o discurso da soberania nacional, da autonomia da América Latina e de política externa brasileira que não seja automaticamente alinhada aos Estados Unidos”, afirmou.
Segundo ele, Flávio e setores mais próximos de Trump podem interpretar a atuação americana de outra maneira, associando-a a uma demonstração de força e pragmatismo econômico.
“Já a candidatura de Flávio Bolsonaro e setores mais identificados com o Donald Trump podem fazer a leitura oposta, apresentar o movimento americano como uma demonstração de força, pragmatismo econômico”, disse.
O episódio ocorre em um momento de tensão na relação entre Brasil e Estados Unidos, agravada pelo tarifaço imposto pelo governo Donald Trump sobre produtos brasileiros, que já movimentou o debate eleitoral.
Petróleo pode ter impacto econômico
Além da questão geopolítica, o acordo pode produzir efeitos sobre o mercado internacional de petróleo caso resulte em aumento significativo da produção venezuelana.
A Venezuela possui cerca de 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, mas sua produção atual está muito abaixo do potencial do país. O aumento da oferta poderia pressionar os preços internacionais da commodity, embora os efeitos dependam da velocidade dos investimentos e da capacidade venezuelana de ampliar a produção.
Para Tavares, esse aspecto é importante para transformar um assunto de política externa em tema eleitoral.
“Política externa dificilmente decide uma eleição sozinha. Esse assunto ganha força eleitoral quando consegue chegar ao bolso”, afirmou.
Segundo o cientista político, uma eventual alteração nos preços internacionais do petróleo pode afetar combustíveis e outros setores da economia brasileira.
Soberania pode ganhar espaço na campanha
O episódio também pode alimentar o debate sobre qual deve ser a posição do Brasil diante do aumento da presença econômica e estratégica dos Estados Unidos na América do Sul.
Para Tavares, o país pode ser pressionado a definir uma posição diante da nova configuração regional.
De um lado, está a interpretação de que os Estados Unidos ampliam o controle sobre um recurso estratégico de um país latino-americano. De outro, a possibilidade de que a presença americana contribua para recuperar a economia venezuelana e ampliar a oferta de petróleo.
“O Brasil está exatamente no meio dessa discussão”, afirmou.
Maior economia da América Latina e um dos principais produtores de petróleo da região, o Brasil terá de lidar com os efeitos econômicos e geopolíticos de uma eventual reorganização do mercado venezuelano, tema que pode ganhar espaço na disputa presidencial de 2026.
Fonte: Itatiaia





